DICAS DE PORTUGUÊS

É CORRETO UTILIZAR "O MESMO" OU "A MESMA"?
O uso da expressão "o mesmo" e suas flexões para fazer referência anafórica (isto é, retomar um termo anteriormente expresso no texto), ainda que prática bastante recorrente em língua portuguesa, não é muito bem vista de acordo com a tradição gramatical. Isso se deve ao fato de tal uso ocorrer em contextos nos quais há outros recursos de coesão mais adequados. Por exemplo:
Conversamos com a vítima e a mesma afirmou desconhecer o agressor.
As maneiras de tornar esse enunciado mais adequado são inúmeras:
Conversamos com a vítima e ela afirmou desconhecer o agressor.
Conversamos com a vítima, que afirmou desconhecer o agressor.
Conversamos com a vítima, a qual afirmou desconhecer o agressor.
Conversamos com a vítima e a jovem afirmou desconhecer o agressor.
Portanto, não há necessidade de se utilizar essa expressão para fazer referência a um termo anterior. O real sentido de o mesmo está em reforçar a ideia à qual se refere:
Eu mesmo preparei o jantar.
Com a faca afiada, acabou cortando a si mesma.
O cardápio de hoje é o mesmo da semana anterior.
Há, ainda, o seu uso como conjunção concessiva:
Mesmo com sono, terminei de assistir o filme indicado por você.
Eu vou conseguir, mesmo que tenha de tentar mil vezes.
Ou seja, o uso dessa expressão como termo de retomada anafórica não é bem visto pela tradição gramatica. Assim, embora vejamos tal ocorrência em muitos textos por aí, vale a pena estar de acordo com as normas para evitar incorrer em erro numa redação ou num exame, por exemplo.
#ficaadica
Prof. Nael, 22/10/2016
MENAS EXISTE?
O termo menos tem origem no latim minus e pertence à classe gramatical dos advérbios. Levando-se em consideração que os advérbios são palavras cuja principal característica se constitui na invariabilidade, não há flexão de gênero (masculino e feminino) nem de número (singular e plural), independentemente do termo com o qual se relacionam. Observe os exemplos:
Hoje, tomei menos café do que ontem.
A leitura estava menos monótona desta vez.
Havia menos problemas de matemática para resolver.
Menos pessoas compareceram às reuniões.
Outra forma de perceber como essa flexão não se justificaria reside no fato de que menos é antônimo de mais, termo igualmente sem flexão (ninguém diz "maisa" ou "maises").
Contudo, é preciso entender tal preciosismo como um rigor gramatical, produtivo em casos de exigência da norma padrão da língua portuguesa. Isso em nada impede que, em situações menos formais, se faça uso de expressões irônicas e divertidas, como o popular "seje menas"!
#ficaadica
Prof. Nael, 05/11/2016
TÁ AFIM?
É muito comum nos depararmos com o uso da expressão "afim" com o sentido de "estar com vontade de". Entretanto, esse uso está em desacordo com as normas, pois a locução prepositiva "a fim de" com valor de intencionalidade ou interesse:
O aluno estudou muito, a fim de tirar nota na prova.
Você está me mostrando isso a fim de me comover.
Realizamos os exames a fim de verificar seu estado de saúde.
Portanto, na hora da "azaração", o objetivo é ficar junto, mas o afim é separado:
Pedro está afim de Maria.
Acho que você está muito a fim... (preposição de subentendida)
Atenção: o adjetivo afim é sinônimo de semelhante, parecido, similar, análogo próximo:
Neste momento, não temos objetivos afins.
O espanhol é uma língua afim com o português.
Já como substantivo, equivale a parente por afinidade, aparentado, adepto, aderente, aliado:
Vou comprar leite, queijo, iogurte e afins.
Familiares e afins serão convidados para a festa.
No flerte, no xaveco, na prova de português ou no vestibular: a única certeza é que ninguém está a fim de errar, não é não?
#ficaadica
Prof. Nael, 05/02/2018

HÁ DEZ MIL ANOS ATRÁS
A consagrada letra de Raul Seixas em parceria com Paulo Coelho utiliza-se da licença poética para trazer um desvio muito comum entre os falantes de nossa língua. Tal expressão configura um pleonasmo, pois o verbo haver, utilizado de modo impessoal, tem sentido de tempo decorrido:
Há muito tempo não como esse bolo.
A recepcionista foi embora há 3 horas.
Se o verbo "há", nos casos acima, já indicam tempo decorrido, dispensa-se o uso do advérbio "atrás". De outra maneira, pode-se empregar tal advérbio, sem o verbo haver. Entretanto, é preciso adaptar as orações:
Comi esse bolo muito tempo atrás.
A recepcionista foi embora 2 horas atrás.
Embora este segundo uso seja bem menos comum, ele está de acordo com a norma padrão da língua portuguesa.
O que não pode acontecer é manter o pleonasmo. Veja outros casos:
Precisamos criar novas estratégias.
(Criar algo novo é uma redundância óbvia e dispensa comentários.)
Já não há mais solução para este problema.
("Já" e "mais" produzem o mesmo efeito de sentido. É como "subir para cima". Utilize "Já não há solução" ou "Não há mais solução.
Precisamos restaurar o antigo prédio do museu.
(Por acaso alguém restaura algo novo?)
Independentemente da regra, vamos continuar ouvindo tais expressões na oralidade, pois a situação descontraída exige de nós cuidado menor com a língua. Quanto à liberdade poética, Raul vai continuar conhecido por ter nascido "há dez mil anos atrás", e Gilberto Gil continuará nos fazendo o mesmo convite: "vamos fugir para outro lugar, baby!".
#ficaadica
Prof. Nael, 28/02/2018

